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segunda-feira, 19 de abril de 2010

Ensaio #7

Teatro Gláucio Gill – 16/04/2010 – 13h às 17h.
Diogo, Carolline, Flávia, Adassa, Fabíola e Verônica Machado.

Pós-Performance. Não conseguimos sair da performance. Os ecos estavam catastróficos, foi preciso dialogar, trocar, implicar, problematizar, amar cada coisa que fizemos nascer. O lugar dos vagabundos. Pela primeira vez tocamos nos vagabundos de Beckett tendo em nós alguma condição que não fosse um rótulo, um estereótipo. A experiência da performance trouxe vitalidade, nos lançou de imediato à vida. Perdemos representação e ganhamos o presente. “Moro em Copacabana”. “Moro cada hora num lugar”. Depois de um tempo a espera se perde e a troca é mais valorosa. Mesmo que incorpórea, a troca é mais importante, vira porto-seguro, vira ponte. A imagem das atrizes como mendigas. Lembra Grotowski. Recém-mendigas. Capazes de ser e não ser tudo o que são. Mutáveis, ao sabor do tempo. Seu nome é Luiz Carlos. Seu nome não é mendigo. Ele exterior ao sistema. Sim, de fato. Exterior ao sistema capitalista. Não devemos temer dar nome ao caos. Sistema Capitalista. Que faz dele ser invisível, incapaz de oferecer ameaça. Ele já não espera nada. ELE NÃO ESPERA MAIS NADA. Mas ainda assim, teme a deus.

RESIGNIFICAR. A nossa responsabilidade em cima da consciência que se tem num jogo. “Enquanto a vida acontece a arte espera”, disse a Flávia. E Ada completou, dizendo que “estamos imbuídos de significações que não são nossas”. Foi um encontro este o nosso emotivo. Estávamos tocados. Por nós, pelo outro. Estamos tocados. A peça mudou drasticamente seu sentido. Pode o todo que já podia e ainda mais. Falamos da essência, que no caso do Luiz Carlos – morador de rua – residia plena, em seu rosto, desprovido de máscaras. Quem são esses vagabundos? Somos nós. Somos nós, caramba. RESISTÊNCIA versus ARTE. Falamos também da temporalidade da cena. Cada atriz possui uma experiência, uma idade, uma forma de lidar com o mesmo. Intuo algo como APROPRIAÇÃO, num nível mais desbravado do que simplesmente a noção de se apropriar. Cada atriz com um ponto de vista específico sobre o mesmo ponto. Que, por isso mesmo, não é o mesmo.

Pela primeira vez um assunto acabou sendo requisitado, tornado necessário em nossas discussões. A questão da imagem. A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO de Debord. Especulamos algumas tentativas:

Funções da Imagem  
Na SOCIEDADE DO ESPETÁCULO (Debord): Em nosso ESPERANDO GODOT:
imagem como realidade imagem como teatralidade, imaginativa
imagem supre faltas imagem sinaliza as faltas, revela erros
imagem desenha unidade imagem desenha instabilidade, humanidade
imagem é abstração da realidade imagem é abstração à realidade, borrão
espetáculo unificado sob a máscara da democracia espetáculo unificado pelo jogo ali aceito e exposto, unificado sob o espalhamento
opção pela imobilidade à atividade de pensar e reagir com dinamismo também imobilidade, em reflexo à atividade excessiva do pensar, a imobilidade pelo reverso, imobilidade não como fim mas como processo
opção pela ilusão à realidade realidade reflexo dela mesma
imagem leva o homem à passividade e à aceitação dos valores capitalistas pré-estabelecidos imagem leva o homem ao embate entre o desejo e o hábito/costume
imagem oferece sentido imagem oferece sentidos, direção
imagem substitui o diálogo imagem institui o diálogo, provoca o encontro
imagem leva à desinformação (manipulação da verdade) imagem leva ao jogo (especulação da verdade), pela confusão e desinformação nos leva à manipulação dos sentidos
negação da própria humanidade reiteração, afirmação da humanidade
sociedade preenchida em seu imaginário pela satisfação garantida sociedade preenchida em seu imaginário pela insatisfação garantida

Preparação Vocal. Por último, as meninas ficaram por conta da amiga Verônica Machado, que iniciou o trabalho de preparação vocal. Ao receber Verônica, que me pediu que a situasse, acabei discorrendo sobre como a voz pode ser vista nesta montagem como outra ferramenta disponível para se encenar este projeto. Isso era óbvio, mas me pareceu ainda mais valoroso pensar a voz sendo conscientemente manipulada e usada para se distanciar e se aproximar deste GODOT. Seguir. Sempre.

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