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domingo, 9 de maio de 2010

A não-resolução em Wagner e em Godot.

Partindo de Wagner, achamos bom ter uma obra do compositor como nosso leitmotiv. Uma ópera de Wagner como Leitmotiv. Algo que nos dê uma base, um ponto de partida, um caminho. Deveríamos achar em suas óperas algo que pudessemos extrair e que de alguma forma se espelhasse com a peça. Não sabíamos o que seria, uma melodia, um tema, um personagem, uma cena, uma ideia.

Enfim, Diogo me emprestou um livro de ópera e alemã e junto com outras leituras, penso que achei algo que caiba na peça e na sua ideia de encenação.

Tristão e Isolda.
Alguns críticos opinam que Tristão e Isolda (1857-1859) é a maior ópera do compositor. Tão complexo e diferente de tudo o que já tinha sido feito antes que ele só conseguiu encená-lo em 10 de junho de 1865, em Munique, graças ao patrocínio do Rei Ludwig II da Baviera.
Inspirada na lenda céltica, Wagner modificou-a, cortando personagens, adaptando de acordo com suas necessidades, a ópera conta também com grande influência das ideias pessimistas de Schopennhauer, com quem Wagner entara em contato em 1852: fascínio pela relação amor/morte, pela ideia da noite como uma forma de refúgio e libertação que se equaciona com o outro mundo e a lógica interna da peça de que é impossível a plenitude amorosa num mundo contigente onde tudo é imperfeito e que só no absoluto da morte esse sentimento pode realizar-se com integral pureza são influencias deste pensamento pessimista. Ideias budistas também influenciavam Wagner nesta época.
Sejam quas forem suas infleuncias, foi sua ópera, mais do que a lenda que pôs Tristão e Isolda na galeria dos grandes apaixonados.

Tudo muito lindo, mas em que essa ópera pode se assemelhar com Esperando Godot?

Nessa ópera o uso do cromatismo sistemático (utilização das notas da escala cromática - composta de 12 semitons - no contexto de uma composição tonal), modulações constantes , impedindo que uma tonalidade imponha se como a predominante, gera a total ambiguidade harmônica. A instabilidade e flutuação permanente que essa técnica produz correspondem à tensão interna do drama narrado, à sua inquietude existencial de matriz schopennhaueriana. Da mesma forma que, na música, nunca se cria a sensação de repouso ( as variadas formas de espera sem resoluções) trazida pela resolução tonal, Tristão e Isolda também se angustiam por tomar consciência de que seu amor - condenado pelo sistema de valores do mundo que vivem - não é possível no mundo da realidade. Só na morte, isto é, no plano Ideal, eles poderão unir-se eternamente. ( acho que aqui temos um parelelo bem forte, sendo a morte, talvez, a nossa verdadeira espera. Porque não Godot poderia ser a Morte? Esta como uma ideia abstrata e não a morte apenas como o fim da vida de um ser? Ou de outra forma, a razão principal pela qual buscamos tudo de forma atabalhoada, nos dias atuais. Seria a busca por mecanismos que nos façam esquecer da morte)

A técnica do cromatismo sistemático faz com que cada vez que o desenvolvimento melódico se aproxima da resolução ( A expectativa do fim de uma espera, a angustia, o ar que não vem e sua necessidade que passa a ser maior justamente por ele não vir), a modulação para outra tonalidade impede a cadência conclusiva. (a continuidade da espera, a repetição que irá gerar nossas angustias e que nunca se resolve)
O cromatismo não é um elemento decorativo, nem uma transgressão da norma representado pelo sistema diatônico. Pelo contrário, é a razão de ser da partitura, de tal forma que são poucos os motivos diatônicos - ou seja, os que possuem tonalidade determinada - que forma exceção à linguagem de conjunto. Assim sendo, eles constituem os "espectros do dia que conseguiram violar o abraço noturno do drama do amor" (as esperas que chegam ao fim, não necessariamente sendo positivas para os que as esperaram, no caso da ópera, a resolução é a morte) . O cromatismo sistemático cria a total ambiguidade harmônica, impedindo o ouvinte de perceber uma lógica de tonalidade-desenvolvimento-resolução (ideia do "quem espera sempre alcança"), o "conflito contínuo entre o que é e o que poderia ser faz dessa música o instrumento adequado para expressar a mistura de insegurança e tensão passional que caracteriza o drama" ( D.J Grout).
O único momento em que uma tonalidade aparece explicitamente é na cena de morte de Tristão, no ato III - justamente porque, com a morte, o seu conflito íntimo está se "resolvendo" (a chegada de Godot): libertado do mundo material e contigente, ele poderá unir-se a Isolda na Eternidade.

Esse texto é baseado no livro " A Ópera Alemã" de Lauro Machado Coelho e as partes em vermelho são minhas visões de como essa questão técnica da ópera Tristão e Isolda se aproxima das questões levantadas na peça. Seria ótimo ouvir a opinião de vocês.

3 comentários:

adassa martins disse...

Phil, que coisa escandalosa!! ADORO. quero isso pra vida da gente. é maravilhoso.

Flávia Naves "O caos reina, oba!" disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Flávia Naves "O caos reina, oba!" disse...

Gente estou escandalizada, que maravilha Phill, quanta novidade, isso pra mim é maravilhoso pois você me acessa coisas nunca antes experimentadas. continue com as postagens! beijos