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sábado, 13 de março de 2010

Falo……


A partir dos comentários recebidos por professores sobre o meu projeto de ESPERANDO GODOT, especulo mais possibilidades. Abrindo…

“atenção ao que não é dito (silêncio)”;

isso me faz pensar sobre o que fizemos com o silêncio, porque eu não o vejo. não tanto assim. o silêncio vem porque de tanto falar nos sufocamos e precisamos pausar, para voltar novamente a dizer a tentar a especular. acho que o silêncio morreu. assim como a espera foi transtornada. o silêncio é outra coisa. ele é ruidoso. ele não é mera pausa, mera imobilidade dos gestos e falas. seria o silêncio a clareza que não vem? a grande sacada? falamos para o quê? o silêncio sim pode ser então alguma chegada. o aportar de um Godot qualquer. alguma forma – clara – de receber a chegada. que se dissipa e traz consigo outras fomes, não saciadas…

tentativa de decifrar a duração do instante, dos textos/ritmos”;

acho que estou falando de metrônomo e não de cronômetro. o tempo neste GODOT é marcado pelo ANDAMENTO e não pela DURAÇÃO. são pontos de vista diferentes. se misturam, mas um viewpoint diz respeito à velocidade, ao ritmo – o andamento – enquanto o outro, diz respeito ao tamanho, à quantidade de tempo gasta pelo gesto movimento ação a ser executado. em GODOT estamos marcando pelo metrônomo o tempo PRESTÍSSIMO desses Godot que hão de chegar.

O metrônomo é um relógio que mede o tempo (andamento) musical. Produzindo pulsos de duração regular, ele pode ser utilizado para fins de estudo ou interpretação musical. (Há mais informações no Wikipedia… Clique aqui!)

aspectos metafísicos ou filosóficos ou apocalípticos da modernidade (lógica do absurdo humano)”;

acho que sinceramente isso se perdeu, se gastou. primeiramente diria que este absurdo já não me é mais tão absurdo. não me importo. não me toca. nem comove. não me move. NÃO ME MOVE. perco-me na objetividade das coisas mais promíscuas, nas vontades mais bobas, nas coisas mais simples. no que tange à esquina. no que tange à profissão, ao amor, ao encontro. isso me move. isso me instiga. isso é objetivo. ISSO PODE SER OBJETIVADO. o metafísico, whatever. disse melman, o céu está vazio. parece chroma-key, na minha opinião.

“ação da dupla cômica. ação cômica como perseguição do agora. a comédia é física. esperando godot é físico, é ação ainda que a espera seja a falta de ação. AÇÃO NO ESTADO DE ESPERA”;

a comédia sendo inevitável visto que é feita na busca, na tentativa e, inevitavelmente, no erro/acerto. física a tentativa. lembrou-me BERGSON e seu O RISO, no qual ele fala da FALTA DE FLEXIBILIDADE (rimos por causa disso. rimos porque a atriz não consegue, porque é inflexível, porque seu corpo não dobra quando é preciso dobrar)… no final das contas, Beckett propõe um rol imenso de ações que situam o nome da peça. NO GERÚNDIO, ação em curso, ação em simultaneidade a outra, ESPERANDO GODOT é espaço prenhe para ações.

o jogo das atrizes é a procura da ação plena no momento único do presente, ausência de passado e futuro”;

o jogo da encenação é a busca da ação plena no momento único que é o presente (da encenação, da representação teatral, do encontro público-obra). tentativa exposta. também real, também desenhada. podemos confundir o espectador e brincar de ser real a coisa já toda ensaiada? o erro desenhado como inédito? o tombo artificial que se traduz em surpresa? que limite? quais limites? eu queria uma atriz atuando muito mal do início ao fim. eu queria. ainda quero.

"”DESESPERANDO GODOT. procurar as cenas possíveis para GODOT. tomando, abandonando, retomando. contrução DESconstruída dos personagens. encontrar e abandonar uma possível cena para ESPERANDO GODOT”;

que instigante tudo isso. vejam:

des-
O prefixo des- indica separação, transformação, intensidade, ação contrária, negação, privação. Segundo o Aurélio: “Assume, às vezes, caráter reforçativo: desafastar, desaliviar, desapagar, desbarrancado, desborcar, desencabritar, desinfeliz, desinquietar, desinquieto, desinsofrido, desnudez, despelar; e, em um caso (pelo menos), reiterativo: deslavrar”.

Segundo Martins (1997, p. 121), “é com certeza o prefixo mais produtivo, mais popular, e desde as cantigas de escárnio já revelava a sua vitalidade”. Na obra poética drummondiana esse prefixo aparece inúmeras vezes em formações dicionarizadas como: desamado, desamar, desamor, destramar, desaprender, desenfado, desesperança, desimportante, entre outros.

Mais sobre o prefixo des- na obra de Drummond, clique aqui.

será esse o nome da peça? enfim… a idéia de DES é muito boa mesmo. e realmente produtiva. é engraçado porque GODOT chegou até mim com um rótulo terrível – A FÁBULA DA DESESPERANÇA, num artigo publicado na revista BRAVO! numa edição de 2006, a partir da estreia da montagem de Gabriel Villela.

procurar as cenas. busca. des- como separação do texto. como transformação dos significados nele impregnados. como intensidade – repetição – como ação contrária (não mais colocar sapatos), como negação (não mais uma série de elementos dramatúrgicos). tudo isso para negar e REFORÇAR a obra. encontrar nela, pela negação, o que dela em nós ainda se afirma.

eu suma, é um projeto completamente lançado no movimento da busca, naquilo que Blanchot chama de espaço de erro, um errar-vagar, próprio a todo processo de criação”;

é isso. caramba, é isso. movimento da busca. movimento real. movimento estilizado. movimento exaustivamente praticado e desenhado. seleção. não natural. consciente. não tenho o que acrescentar.

espécie de gatilho que desencadeia pensamento em busca de solução para o desassossego gerado pela simples idéia de fazer Godot chegar, um cheque-mate qualquer pode, inclusive, não vir. não é isso que importa, mas o caminho percorrido em todas as suas bifurcações”;

o tal GODOT enquanto presença, enquanto homem presenticado não vai rolar. não é isso. acho que ficou claro. importa se mover. importa buscar. isso dota a vida de algum sentido. isso é real. é concreto. é OBJETO. bifurcar-se.

Um comentário:

LéoSamarino disse...

interessantíssimo! E a cabeça só roda e roda...
Progredindo...progredindo...sempre...