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quinta-feira, 11 de março de 2010

“ETERNO RETORNO”

" Nada é mais engraçado do que a infelicidade." ( Beckett )

"Esperando Godot não conta uma história, mas explora uma situação estática."
( Martin Esslin. 1961)

" No início, as críticas definiram a peça como uma peça de vanguarda: era só assim que ela podia ser salva. Depois, fato surpreendente, a peça não se limitou a sua platéia de intelectuais e esnobes esclarecidos: ela continuou seu caminho, atravessando platéias sempre mais amplas, sempre mais afastadas desse hermetismo onde a crítica politicamente correta queria confiná-la. Godot atingiu o grande público parisiense, estrangeiro, a província. Hoje, Godot comove até as associações de teatro popular. [...] Sociologicamente, Godot não é mais uma peça de vanguarda. [...] Godot ficou adulto. [...] Godot se ampliou, porque Godot continha as propriedades específicas do seu tempo.
( Barthes, Roland. Escritos sobre o teatro. 1954. p.59.)

"... Nesse sentido, a peça constitui um eco da memória afetiva coletiva, uma expressão palpável das angústias essencias do homem, uma expressão da espera, da esperança contínua e desesperada de cada ser humano, esperando o seu Godot, além das contingências temporais. Como em O Deserto dos Tártaros, de Dino Buzzati (2003), em que o protagonista espera invasores que nunca chegam, a essência de Godot é variável: a sua identidade depende da função que cada um lhe atribui, o que amplia consideravelmente a receptividade da peça. Na peça, Godot nunca chega, e a única alternativa, a única ocupação possível parece ser o suicídio; mas os personagens não têm a coragem necessária para se enforcar e acabam se agarando em pequenas diversões cotidianas para não cair no desespero, presas invariáveis de suas esperas decepcionadas e de uma existência desprovida de sentido, porque, no contexto pós-guerra de escrita da peça, toda referência metafísica havia desaparecido.
Os personagens funcionam por pares, compondo binômios incapazes de viverem juntos e incapazes de se separarem. A separação, constantemente pensada com uma solução possível, acaba por tornar-se demasiado tardia, e o fato de ficarem juntos constitui uma última opção para afrontar as angústias da vida. "Não me toque, não me faça perguntas, não fale comigo - fique comigo", diz Estragon a Vladimir, ilustrando o quanto a presença constitui um cataplasma, mas jamais solução".
( Tânia Alice Feix. A encenação de Esperando Godot no Estado do Ceará: da busca estética à consciência ética. 2005.)

Um comentário:

Diogo Liberano disse...

léo, a lógica do eterno retorno nos serve demasiadamente! vamos desbravar isso! adorei! obrigado.