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sexta-feira, 11 de junho de 2010

um trecho de NÃO DOIS para iluminar nosso outro princípio

ELA Não quer um copo de água? Não tem sede?

Você está cansado. Paramos aqui ou continuamos?

É que um trabalho tão intenso deveria às vezes levar em conta a fadiga física.

Mais um pouco de água? Quanto faz que você não come?

Talvez fosse bom recomeçar, mas tomando em conta o trabalho já realizado.

Não é o caso de atirar tudo pela janela.

Às vezes é tão fácil esquecer cada um dos detalhes, cada uma das intensidades, por isso acho que cada momento que repetimos se transforma numa verdadeira descoberta.

Temos que procurar recordar cada detalhe dos acontecimentos com a mesma intensidade original, você não acha?

Primeiro transformamos experiências vividas em conceitos e com os conceitos nos afastamos das intensidades.

O problema dos conceitos é o esquecimento das intensidades, o esquecimento da experiência da vida, você não acha?

Falamos de palavras que aludem a outras palavras, temos que voltar para as intensidades,

Voltar a recordar tudo segundo a segundo com nossos corpos

que não se esqueça de nada, nada de nada,

ELE Me falta ar

ELA Quanto de falta, um litro, dois litros, você sempre foi muito preciso, por que não há de sê-lo agora?

Temos que reconstruir cada detalhe, cada instante,

senão se esquece tudo

ELE Pára que eu me sufoco, poderia te bater me falta ar

ELA Agora é o momento.

Talvez possamos reconstruir

as palavras nos servem para esquecer, muitas vezes tentamos falar para esquecer.

Cada frase que dizíamos sepultava cada acontecimento.

Tentávamos esquecer o que tinha crescido entre nós

é disso que se trata

de reconstruir tudo

Por acaso se pode falar de tudo isso?

Se pode falar da morte, da dor sem evocá-las com a proximidade dos nossos corpos, ou simplesmente evocamos tudo isso para esquecer os horrores e para transformar o horror em palavras que já não significam nada

Te sufoco, te faço mal? Passa o ar? A traquéia ainda resiste?

Quantos sufocados?

Agora sim, estamos juntos, quantos com a cabeça no barro? Sem poder respirar

Corpos nus, mutilados, agora sim estamos juntos. Agora sim, agora sim.

Podemos recordar juntos, você não acha?

 

___ trecho do texto paso de dos de eduardo pavlovsky. será esse o nosso movimento agora. o da memória. trazer tudo de novo. pelos corpos. que não se esqueça nada. nada de nada.

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