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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Dos [possíveis] monólogos de Lucky.


Variações Meyerhold
(segunda versão)
de Eduardo Pavlovsky

MEYERHOLD

[...]

Atacaram-me a improvisação. É a arma mais potente da imaginação de um ator. A arma da revolução e a pesquisa criadora sem limites, caralho! Sem limites! Lênin e Trotsky prepararam a revolução com a construção de um imaginário. Isso era revolucionário. Eu digo que não há ator no mundo que seja bom se não pode improvisar, imaginar, sair do roteiro. Improvisar antes das apresentações. Não há! Mas o que eles sabem! O extraordinário ator Nekrasov, o grande Nekrasov, um dos maiores atores do mundo, lembro que em uma peça de Osinski que durava três atos lhe disse: "Vem, Nekrasov" - era um grande, um grande, com sua presença já enchia o palco -, "vem, Nekrasov". "Sim, sim, sim", me diz. "Nesta peça, Nekrasov, no último ato, sua mulher, Tatiana, vai lhe dizer: 'Ivan, vou eu ou vai você. Eu quero que você saia de casa, não mais você, porque estou apaixonada por Pedro'. E sabe o que você vai fazer? Pense bem, são vinte e cinco anos de casamento, quero ver sua cara, lembre-se de Stanislavski, caralho, nesse momento quero que sua cara caia, os músculos, assim, assim. Quero que todos os músculos caiam de dor, as pessoas têm que ver sua dor na expressão, nos músculos de cara, caralho! Você entende, Nekrasov? Tatiana fala e você: bram! A cara, tudo se afrouxa..." "Lá vou eu". Fui para a última fila porque era um cara estranho, incomum, ultrapassava o limite dos atores russos.

No último ato Tatiana lhe diz: "Ivan, você ou eu. eu quero que você vá embora, Ivan, porque estou apaixonada por Pedro, seu amigo íntimo". Então Nekrasov a olha assim, vira a cara e faz... (Enorme gargalhada, prolongada.) Termina a peça e eu: "Vem cá, Nekrasov, o que você fez? Que foi que eu disse? Quando Tatiana lhe dizia isso, os músculos da cara, como nos ensinou Stanislavski, têm que cair, por que você riu?". "Meyerhold, é que tinha tanta vontade de rir, tanta vontade! E seguindo sua escola, Meyerhold, não será, Meyerhold, que em cada separação já uma grande gargalhada de liberação? (Ri.) Desta me safei! (Ri.) Era muito inteligente, eu fiquei pensando, além disso, quando ia ver as apresentações sempre improvisava porque mudava o sentido de cada cena, como um jogo, mudava assim como num jogo de xadrez, mudava aqui, punha lá, era maravilhoso! Quando eu o dirigia não tinha expectativa do que este homem ia fazer, acostumado aos atores russos, aos grandes atores russos, que são tão diferentes. Nekrasov... (Sem pausa, olha para alguém do público e lhe diz:) Petrinski, meu dentista, você está aqui, como vai? Olha, depois da apresentação, por favor, vê se me faz uma ponte aqui, porque não aguento mais de dor. Aqui, tá vendo? (Mutação.) Eles me atacaram por isso! Fui atacado porque eu era capaz de interromper as cenas de Shakespeare, ou de Tchekov com um acontecimento. Também me atacaram de anticomunista, anticomunista porque falava com meu dentista! Mas eles eram assim, assim são...

[...]

Trecho de uma fala da peça acima citada.
              

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