\\ Pesquise no Blog

domingo, 3 de janeiro de 2010

"A grandeza do teatro beckettiano"


Diretores falam sobre a importância da obra teatral de Samuel Beckett

Rubens Rusche, diretor e produtor teatral. Realizou diversas encenações das obras de Beckett, entre elas Fim de Jogo, que lhe rendeu o prêmio APCA de melhor diretor em 1996.

CULT - Qual a importância de Beckett para a história do teatro?
Rubens Rusche - A partir de 1953, com a encenação de Esperando Godot em Paris, com direção de Roger Blin, tem-se o nascimento de um tipo de teatro radicalmente novo, o surgimento de uma nova escrita cênica. Isso se torna mais evidente com as encenações de Fim de Jogo, em 1957; A Última Gravação, em 1959; e Oh, que Belos Dias, em 1961.

Percebe-se aí uma constante, e cada vez mais radical, redução das dimensões espaciais do drama e de seus elementos básicos, ao lado de uma ruptura com a estrutura linear da ação, que passa a ser moldada de forma circular. O uso do palco vazio ou de aposentos sem mobília aponta para um retorno consciente ao teatro como teatro, em que cada gesto e palavra tornam-se agora importantes, com referências aqui e ali ao próprio palco, à plateia e aos elementos internos de uma peça. Nenhuma tentativa é feita no sentido de criar uma ilusão da realidade: a peça não é mais sobre alguma coisa, mas sim a própria coisa, um mundo que reflete a si mesmo.

CULT - Beckett foi um inovador, mas como ele se apropria da tradição em sua obra? Como dialoga com os cânones da dramaturgia?
Rusche - Essa relação se dá, nas primeiras obras, em forma de paródia, de modo irônico. Há de fato uma ruptura, a fundação de um novo tipo de teatro, cujos princípios teóricos Beckett vai buscar na revolução das artes plásticas. É importante ressaltar que Beckett se inscreve na história da dramaturgia ocidental questionando suas regras e transformando-as de modo a empregá-las a serviço de sua própria poética cênica.

A noção clássica de "progressão" dramática é assim assumida não mais pela história, pela intriga, mas sim por uma evolução física, musical, rítmica. Beckett retoma e prolonga um trabalho de demolição, iniciado no fim do século 19 e radicalizado nos anos que antecederam a Segunda Guerra Mundial, em particular por Pirandello; um trabalho de destruição, em forma de paródia, das estruturas dramáticas, apontando para o fato de que não se pode mais fazer teatro segundo a antiga lei. Assim, a ação - elemento fundamental da dramaturgia clássica, com sua evolução, seu tempo linear que permite a emergência de conflitos e a resolução deles num desenlace - torna-se impossível.

CULT - A plateia tem de ter uma iniciação ao universo beckettiano antes de assistir às peças?
Rusche - Há um equívoco, entre tantos outros, que se costuma cometer com Beckett. Esse equívoco consiste em querer fazer dele um filósofo, reduzindo-o a uma metafísica do absurdo, do nada, defensor do mais pessimista existencialismo, tornando-o, assim, inacessível a um espectador/leitor não iniciado. As dificuldades que suas obras apresentam radicam, essencialmente, em sua originalidade formal, no fato de não poderem ser classificadas ou incluídas com facilidade dentro de um sistema, teoria ou movimento literário, exigindo do leitor/espectador uma concentração especial, uma aproximação aberta, sem preconceitos.

Beckett é, acima de tudo, um escritor, um grande poeta que se dirige muito mais aos nossos corações do que à nossa inteligência. Não é, como muitos afirmam, um autor intelectual, difícil, obscuro. O maior exemplo da simplicidade e da clareza de sua obra foi proporcionado pelos prisioneiros da penitenciária de San Quentin, na Califórnia, que nunca haviam pisado em um teatro e ficaram imediatamente impressionados e transtornados diante de uma encenação de Esperando Godot. Aqueles prisioneiros sabiam o que é a espera. Para eles, a espera não era algo metafísico, e sim uma coisa cotidiana, familiar.

CULT - Quais os principais desafios enfrentados por diretores e atores ao trabalhar com a obra beckettiana?
Rusche - Muitos atores famosos recusaram-se a trabalhar com textos de Beckett, enquanto outros têm-se dedicado de modo quase religioso a interpretar seus diversos personagens. Ocorre que se trata de um tipo de teatro que exige uma entrega total do ator. O ego precisa ser deixado de lado. E esse é o primeiro obstáculo, numa época de busca da fama pela fama. É importante que o diretor, ao escolher o ator/atriz, já tenha certa intuição do personagem e da peça, talvez até mesmo do estilo de representação.

É preciso, então, que ele trabalhe arduamente sobre o físico do ator, sobre sua história pessoal, sobre seu ser mais íntimo, no sentido de extrair organicamente dele a interpretação de sua partitura, de modo que essa interpretação não venha a se perder em inúteis e gratuitos formalismos. Diretor e intérprete nunca devem esquecer o aspecto "musical" da escrita beckettiana, que tem como base a primazia do ritmo, a importância das sonoridades e dos silêncios, a repetição dos temas, os leitmotiv, bem como a noção primordial de ruptura, as mudanças de tons e tempos. A escrita cênica de Beckett constitui-se numa verdadeira partitura, mas, sem dúvida, não há uma única maneira de decifrá-la e executá-la; as possibilidades são infinitas.

Gerald Thomas, diretor de teatro e ator. Dirigiu Quatro vezes Beckett, All Strange Away, Compania, The Lost Ones, entre outras.

CULT - Qual a importância de Beckett para a modernidade?
Gerald Thomas - Beckett é o mais importante dramaturgo do século 20. Não há ninguém que chegue perto. É um tremendo erro categorizá-lo de "teatro do absurdo" (como fez Martin Esslin). Não há ninguém que tenha criado uma marca própria, com personagens, linguagens e estilos próprios, como Beckett.

CULT - Quais as principais dificuldades de encenar Beckett?
Gerald - Na verdade, não há nada mais fácil. Beckett reduziu a linguagem ao essencial, tão essencial que todos os níveis do corpo entendem. Ele escreve sobre as nossas perplexidades, mas as coloca na boca de palhaços e insere esses palhaços em situações de estresse e limite. Então, se alguém acha isso difícil, recomendo que não saia mais da frente da televisão.

CULT - O crítico norte-americano Harold Bloom acredita que Fim de Jogo é a obra-prima de Beckett. Na sua opinião, que obra aglutina as principais marcas da dramaturgia beckettiana?
Gerald - Fim de Jogo, sem dúvida, é uma delas, mas não troco Esperando Godot por nada. Porém, é na prosa adaptada para o palco que me encontrei como encenador. Textos como All Strange Away, Compania, The Lost Ones são aqueles que chamamos de "extremamente" beckettianos, pois uma voz narrativa nos conduz, e "essa voz, de costas, sozinha, no escuro" é puro Beckett. É o homem e seu tamanho mínimo diante de tudo, diante da história, diante de Deus, diante da imensidão do universo escuro.

CULT - Que lembranças pessoais você guarda de Samuel Beckett?
Gerald - Um ser humano tão frágil e engraçado quanto seu monólogo Rockaby (Cadeira de Balanço). Já velho e capaz de lidar com as mãos artríticas e com a dificuldade de atravessar o Boulevard Saint-Jacques, ele ainda tinha aquele "comentariozinho" irônico a respeito de si mesmo e de sua própria condição, assim como em Godot: "A bota. Não entra. Não sei se ela diminuiu durante a noite ou se foi o pé que cresceu".

Nenhum comentário: