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domingo, 28 de fevereiro de 2010

5. ENCENAÇÃO - Parte II

             
Imagens em jogo: metalinguagem.

O jogo será, portanto, o campo da ação teatral, o que não suprime o personagem, mas o ordena segundo uma lógica diferente da identificadora (Guénoun, 2004).

A partir de toda fundamentação apresentada e desenvolvida neste projeto, posso dizer que a encenação será desenvolvida a partir do cruzamento de três vértices determinantes: IMAGEM, JOGO e METALINGUAGEM.

IMAGEM – Neste contexto, a imagem é a linguagem da escrita cênica. Escrita que entrará em embate com a escrita dramatúrgica, embate entre imagens e palavras. Além disso, pensar a imagem a partir da discussão proposta por Debord, no sentido de ser a imagem um artifício, uma fuga aparente do real;
JOGO – O jogo como mecanismo pelo qual se articulam os mecanismos da encenação. Por meio dele, a relação entre as atrizes será construída, bem como multiplicaremos pontos de vista e relativizaremos certezas. O jogo como cena. A cena como a vivência exposta de um jogo;
METALINGUAGEM – O processo de construção do espetáculo faz parte do próprio espetáculo. A arte, em especial o teatro, é o instrumento das atrizes/personagens para tentar se relacionar com o mundo. Podemos dizer que Vladimir e Estragon tornaram-se célebres por representarem a angústia existencial do homem moderno. No entanto, mais que representativos do homem, creio que eles sejam representativos de si mesmos enquanto personagens de uma obra. Seu cansaço e angústia não dizem respeito, unicamente, ao contexto mundial no qual foram escritos. Talvez seu sofrimento exista pela consciência de serem personagens, eternos alvos de uma existência que inexiste. Acentua-se a isso o fato de estarem destinados – dentro da obra que os dá “existência” – a esperarem por alguém que eles já sabem, não virá. Em paralelo a isto, temos as atrizes numa busca pelo espetáculo, a fim de encontros inúmeros com o espectador, com o personagem, numa busca pela forma cor duração e intensidade dos gestos e ações.

Acredito que ao trabalhar a relação destes três pontos durante os ensaios será possível montar esta encenação de ESPERANDO GODOT. Sem dúvida o nosso material primordial serão os próprios ensaios, quando nos perceberemos afetados e movidos pelo desejo de erguer nossa encenação, que será justamente construída por meio destes olhares individuais dentro de um coletivo.

Por último, num artigo publicado na revista FOLHETIM, ao discorrer sobre a crise da representação, Antonio Guedes faz um comentário acerca da obra A noiva despida pelos seus celibatários, mesmo ou O grande vidro de Marcel Duchamp. Gostaria aqui, no entanto, de substituir o nome da obra de Duchamp e colocar em seu lugar, o nome da peça de Beckett que dá base a este projeto. Com isso, creio eu, é possível ver três tempos da encenação: o que foi ESPERANDO GODOT, o que está sendo agora e aquilo que será, quando houver finalmente o encontro entre encenação e espectadores.

"Nenhuma história aparente. Nada é dito. Tudo está para ser construído. O sentido de Esperando Godot está na busca do sentido. Mas isto não significa que falta sentido à obra. Ela é uma espera pelo olhar que a habitará e que se completa com a imagem do espectador. Mesmo que o sentido seja, simplesmente, olharmo-nos a olhar através de uma imagem incompreensível” (Guedes, 1998).
                   

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