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domingo, 28 de fevereiro de 2010

3. JUSTIFICATIVA - Parte II

         
Da sociedade do espetáculo à presentificação dos desejos. 

O espetáculo – diz Debord – consiste na multiplicação de ícones e imagens, principalmente através dos meios de comunicação de massa, mas também dos rituais políticos, religiosos e hábitos de consumo, de tudo aquilo que falta à vida real do homem comum [...] – tudo transmite uma sensação de permanente aventura, felicidade, grandiosidade e ousadia. O espetáculo é a aparência que confere integridade e sentido a uma sociedade esfacelada e dividida (Júnior, 2001).

A partir da década de 70, pode-se dizer que a linguagem do comércio e da mercadoria se dissemina ainda mais. A humanidade se vê refletida num reflexo “melhorado” de si mesma, onde a fragmentação que antes era um ônus da experiência com as guerras, converte-se num elogio à heterogeneidade e à diferença, valorizando a emergência de estilos de vida variados e, inevitavelmente, uma sempre nova e constante produção de signos e imagens.

É em meio ao incessante surgimento de novas imagens e signos, que o pensador francês Guy Debord apresenta a sua noção de sociedade do espetáculo, numa forte contestação contra a perversão da vida moderna, que preferia a imagem e a representação ao realismo concreto e natural, a aparência ao ser, a ilusão à realidade, a imobilidade à atividade de pensar e reagir com dinamismo (Debord, 1997). Para Debord, a vida moderna dá início a um processo de substituição da realidade por aparências de uma realidade outra que possa soar menos contraditória e dolorosa ao homem, tornando as relações humanas meras imagens e espetáculos.

Levando ainda mais adiante a leitura de Debord, o psicanalista francês Charles Melman, por uma sutil e determinante diferença, aponta que ao invés de representação, o homem deste início de século XXI é gerido pela noção de presentação. Estamos no exato ponto do abandono de uma cultura, ligada à religião, que obriga os sujeitos ao recalque dos desejos e à neurose, para nos dirigir a outra em que se propagandeia o direito à expressão livre de todos os desejos e à plena satisfação deles (Melman, 2008).

É a partir desta diferenciação, a saber, a indisposição do homem atual em relação à espera – ou em relação a não satisfação dos desejos, dos encontros, de toda e qualquer forma de saciedade –, que creio ser possível validar a necessidade da chegada de Godot. A nossa noção de espera foi alterada, no entanto, nossa espera não foi exterminada. Ao que me parece, quanto mais buscamos certa saciedade, mais nos descobrimos famintos, mais nos revelamos porto para novos desejos.

Parto, então, desta abordagem e volto ao original de Beckett. Em ESPERANDO GODOT, o dramaturgo mais uma vez nos fala pelo essencial, desenhando com extrema precisão a busca do ser humano pela satisfação e pela completude. Para mim, é importante reconhecer como esta busca também nos leva ao fim, sendo o fim o ponto final dado a qualquer desejo, a qualquer fome de vida. De certa forma, espero conseguir revelar que hoje, diferentemente de antes, contemplamos nossos desejos com extrema velocidade. E, assim, tão rápido os saciamos, tão mais rápido nos tornamos alvos de novas vontades. É, como em Beckett, um ciclo sem fim. Um ciclo sem arremate.
           

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