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domingo, 28 de fevereiro de 2010

3. JUSTIFICATIVA - Parte I

           
Ou a necessidade de montar Beckett agora.

O que fundava a realidade, sua marca, é que ela era insatisfatória e, então,
sempre representativa da falta que a fundava como realidade. Essa falta é, doravante,
relegada a puro acidente, a uma insuficiência momentânea, circunstancial,
e é a imagem perfeita, outrora ideal, que se tornou realidade (Melman,
2008).

Com ESPERANDO GODOT, pode-se dizer, Beckett nos proporciona uma dramaturgia carregada dos impasses do pós-guerra. A fragmentação da linguagem, a imobilidade e a situação de espera na qual os personagens estão inseridos podem ser lidas facilmente pela ótica de angústia e destruição posterior à guerra, numa construção tão contraditória como a própria vida parecia destinada a ser.
 
Beckett nos sinaliza a destruição dos valores humanos e constrói personagens que diante da ausência e o vazio de valores encontram-se titubeantes diante das possibilidades. Eles podem tanta coisa – incluindo a morte –, que optam pela espera de alguém que os possa salvar. E nesse tempo da espera transcorrem jogos entre as personagens que sugerem, explicitamente ou não, meios encontrados pelo homem para lidar com a falência da busca por algum sentido a sua existência.

Avançando do contexto pós-guerra para este de agora, ou seja, para o final da primeira década do século XXI, eu me pergunto o que possa ter acontecido de lá para cá. O que o ser humano foi capaz de erguer, o que mais foi capaz de tombar? Penso sobre o que possa significar esse ato de espera das personagens de ESPERANDO GODOT e intuo como esta noção está alterada hoje.
 
A destruição provocada pela guerra exigiu inúmeras reconstruções. Em inúmeras frentes – e ciências – o homem se dispôs a procurar explicações para a experiência tão paradoxal que havia se tornado sua vida. É fundamental apontar como a máquina capitalista se fortaleceu ao financiar tanto a guerra como a reconstrução do que ajudou a destruir. A lógica do capital se revela como a principal produtora e vendedora de todo e qualquer sentido que pudesse validar nossa existência. Pela produção e consumo de bens variados o homem moderno passou a ter acesso a tudo àquilo que a guerra havia alavancado de sua existência. O sentido de uma época expresso em imagens e signos, representações e artifícios que assegurassem a aparência de algum conforto, a ilusão de alguma segurança e identidade possíveis.

É preciso tocar nas mudanças ocorridas de 1950 até agora para recontextualizar GODOT. Mudanças desejadas e empreendidas muitas vezes com o intuito de tornar os indivíduos em sociedade capazes de abdicarem da dura realidade. Mudanças geradas para situar o homem de um mundo destruído num outro construído, redesenhado por aparências e consumos (de fatos, notícias, produtos, mercadorias...).

E tudo isso já havia sido pré-anunciado por Beckett. Em seu estudo O teatro do Absurdo, Martin Esslin afirma que a rotina de esperar Godot representa o hábito que nos impede de alcançar a consciência dolorosa, porém fértil, da plena realidade da existência (Esslin, 1968). A busca, então, pela salvação acaba sendo, em última instância, uma evasão do sofrimento e da angústia humana que nascem, inevitavelmente, do contato e confronto com a realidade de nossa condição.
                       

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