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domingo, 28 de fevereiro de 2010

3. JUSTIFICATIVA - Parte III

              
Até quando começarmos a entender que o desejo será sempre insaciável.
  
Puro, profano, livre dos nomes sagrados, é o que é restituído ao uso comum
dos homens (Agamben, 2007).

No tópico anterior do presente projeto, no qual apresentei – não ao acaso – uma série de citações sobre Samuel Beckett e ESPERANDO GODOT, vislumbrava justamente expor uma leitura do autor e de sua obra que partisse de uma constelação de leituras já lançadas por sobre ambos. Foi importante criar este contraponto, para que eu pudesse compreender o que exatamente em Beckett e em seu GODOT me tocam.

Em primeiro lugar, para mim, esta obra ocupa uma série de lugares e categorias e opiniões com as quais eu não tenho condição de lidar, pois me chegaram já prontas, quando para mim, o importante num processo artístico é justamente a descoberta, a surpresa das revelações. Ao montar GODOT agora, movido pelo desejo de profanação, o que quero é principalmente destituir a obra dessa esfera inconsciente que a enclausura e classifica, reduzindo a grandiosidade do texto de Beckett. Será um esforço de passar GODOT deste domínio inconsciente para outro mais concreto e tangível, tocante a minha pele e a de toda a equipe. Queremos redescobrir GODOT, independente se este processo venha a validar ou não tudo o que já foi dito. O que importa é percorrer o caminho com nossas próprias pernas.

Em seguida, é um esforço de profanação alimentado por uma busca da essencialidade. Em virtude de um sem número de estudos e opiniões feitas, GODOT chegou primeiro a mim não pela obra, mas pela fama. Eu fui, entre aspas, privado do meu contato com a obra. Eu, mesmo antes de ler a obra, já a sabia, já detinha informações e mesmo certa intimidade sobre suas situações e personagens. Este projeto, então, quer expor um processo de descoberta desta obra feito pelo embate dos artistas com esta obra. Quer ser este projeto – nele mesmo – a obra e o encontro com ela.

Cabe ressaltar que falar do meu desejo de fazer Godot chegar não implica em construir uma encenação na qual um ator surgirá como se fosse Godot. Por tudo já dito e desenvolvido neste projeto, creio que tenha ficado claro que o que se espera não é necessariamente um Godot personificado, mas toda e qualquer presença que venha a saciar algum desejo. Seja isso por meio de imagens objetos ações danças músicas gestos lembranças etc.

Por último, quando assinalo a idéia de profanação, ressalto uma ambigüidade inerente à palavra exposta por Giorgio Agamben. Ele diz que os filósofos não cansam de ficar surpreendidos com o dúplice e contraditório significado que o verbo profanare parece ter em latim: por um lado, tornar profano, por outro – em acepção atestada só em poucos casos – sacrificar (Agamben, 2007). Dito isso, parece-me mais claro visualizar um processo de profanação da obra, como fosse esse mesmo uma série de aproximações e afastamentos do original. Um movimento ininterrupto que assegure chegadas e pequenas esperas, e mais chegadas e outras esperas, para revelar que sim, somos seres fadados à incompletude, bem como assinalou Beckett com ESPERANDO GODOT.

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