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quinta-feira, 17 de maio de 2012

“Tem uma hora que o sujeito tem que entender que algo simplesmente não deu certo e que é melhor enterrar...”

Reflexões a partir dos últimos dias e ensaios

MIRANDA está com tudo em sala de ensaio. E fora do ensaio também está. Como pode uma obra te requisitar o tempo inteiro? Você entra num ônibus e vê pela janela uma sacola voando solta em meio ao vento. Daí eu penso: isso tem a ver com aquela sensação de descontentamento pleno, que finaliza uma das cenas de MIRANDA, não tem?

Quer dizer, pode tudo, né? Qualquer coisa serve. É isso mesmo. Não há culpa. Problema algum. MIRANDA mais uma vez está abolindo o sim e o não. Abolindo o bom e o ruim. Não sobra direita e/ou esquerda. O vazio não tem qualidade, é espaço em branco para todo e qualquer desastre. É difícil. Sim! Está sendo mais ainda agora, quando dizemos a todos e a todas deter consciência sobre o nosso material de trabalho. É mentira.

Quando achamos deter consciência, descobrimos nova ignorância. E isso se chama estar vivo.

É assim mesmo. Ontem, antes de dormir, abri o CREPÚSCULO DOS ÍDOLOS de Nietzsche e - Divina Miranda! - estava você ali revistada em palavras. Todo o seu mistério, toda a sua embriaguez, estavam explícitos. Era tu explicitada.

Estas palavras hoje são menos uma coisa do que outra. Quero dizer: eu estou escrevendo para tentar desanuviar a vista. É muita reflexão. MIRANDA consome a energia do corpo só por pensarmos. É muita sinapse. É IMPOSSÍVEL NÃO PENSAR.

Mas, preciso compartilhar algo no mínimo engraçado. Um dos professores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na qual me graduei e na qual nasceu este espetáculo, em resposta a um e-mail enviado pela atriz Natássia Vello (solicitando o empréstimo de uma mesa de luz para nossa temporada), acabou escrevendo o seguinte sobre o nosso trabalho:

Não acredito que o Diogo quer retomar aquela porcaria de "Não-sei-o-que da Miranda"!!! Tem uma hora que o sujeito tem que entender que algo simplesmente não deu certo e que é melhor enterrar...*

Caramba. Que revelação ler as palavras dele (a mim, obviamente, não destinadas). Ele sintetiza em poucas linhas justamente a definição deste trabalho. A questão que se impõe é justamente esta: por que é que é preciso enterrar aquilo que não deu certo? De onde nasce essa exigência? Aliás, que exigência é essa? Quem dita isso? O que é dar certo ou errado, caro velho professor universitário?

Eu, sinceramente, acho melhor que se enterrem outras coisas e pessoas deste mundo. Não há nada aqui a ser entendido. A busca em MIRANDA não é para entender, mas justamente para sentir ser possível ser erro pleno e ser sem sentido. A busca de MIRANDA é justamente o avesso do que é a Academia para você, caro professor. A saber: um micro-celeiro sob organização hierárquica para construção de seres infelizes, para a construção de futuros mendigos (de força e espírito).

Ora, convenhamos. Beckett, talvez dissesse: esse cara é um comi-trágico.

De qualquer forma, dia 02 de junho - quer isso seja bom ou ruim - VAZIO É O QUE NÃO FALTA, MIRANDA entrará em cartaz na Cia. dos Atores. Venham todos e todas!

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