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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Dramaturgia do acontecimento

Reflexões Imediatamente Posteriores ao Ensaio de 02 de Maio de 2012

Tentarei colocar em palavras um pouco deste movimento atual de escrever VAZIO É O QUE NÃO FALTA, MIRANDA. Como se sabe, em junho teremos uma nova temporada de MIRANDA no Rio de Janeiro. Será a nossa terceira temporada, sendo que as duas anteriores aconteceram, respectivamente, em setembro e dezembro de 2010.

Desde dezembro de 2010 não apresentamos o espetáculo. E ao decidirmos voltar com MIRANDA neste ano, percebemos que precisaríamos rever MIRANDA, entender novamente se a fagulha inaugural que nos arrepiava ainda era capaz de nos seduzir. E é. Mas não vou falar disso. Vou tentar discorrer sobre a consistência, sobre a constituição das ações em MIRANDA. Sobre a dramaturgia, por assim dizer.

A dramaturgia deste espetáculo é cênica. Majoritariamente cênica. Ela depende do corpo das atrizes. De suas vozes (várias em cada uma) e dos estados, dos calores, ou seja, não é dramaturgia que possa ser lida. Qualquer tentativa nesse sentido - a saber, o de palavras postas num papel - é pouco. É insuficiente. Nada novo, talvez. É assim com as encenações teatrais, eles sempre se materializam para além de palavras. Acontece que a dramaturgia textual de MIRANDA deveria conseguir domar o acontecimento, o arrepio, a instabilidade.

Sendo assim, como escrever o tremor? Como escrever terror, dificuldade e desorientação (para citar Bogart)? Como ser escrita-liquidificador?

Não se escreve. Não tem como. Assim, no ensaio de hoje, entreguei ao elenco e a mim mesmo a primeira cena, a nossa primeira tentativa, intitulada ESTAMOS ENTERRANDO GODOT. Nesta cena - ou tentativa - tentei escrever uma espécie de dramaturgia-roteiro, pela qual as atrizes possam passar seus corpos e atravessar o sentido ali em palavras concentrado.

Quero dizer: nossa dramaturgia acontece em movimento (não no papel). Quero dizer: nossa dramaturgia é escaleta de acontecimentos que precisam ser performados, que precisam de tentativa, lapidação e suor. Quero dizer: sendo assim, nada em nosso dramaturgia é tão certo, nada é tão fechado.

Nesta dramaturgia que aqui chamo do acontecimento, interessa-me sobretudo plantar problemas que possam vir a ser desdobrados via ação e afeto. A escritura acontece pelos corpos das atrizes e também pelo meu. No papel, apenas um fio a seguir.

O uso de rubricas pontua as mudanças de blocos, digamos assim. Quer dizer que em uma tentativa, há pequenos pedaços que formam o todo. Nestes pedaços, ouso sugerir escalonamentos, ou seja, cada bloco pode ser feito por uma atriz, ou dupla de atrizes. Em outros blocos todos estão em diálogo.

O mais interessante que conversamos no ensaio de hoje foi que toda a cena - toda a tentativa (mesmo quando “eu” não estou “em ação”) - pode me alimentar a explodir minhas ações físicas e textuais. Contracenação. Alimentamo-nos uns dos outros. Como dar corpo ao meu personagem?

Na postagem seguinte, disponibilizarei a descrição das personagens que alimentam o roteiro da peça e nosso imaginário. Por hoje é isso.

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