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segunda-feira, 7 de maio de 2012

Por que o vazio é aquilo que não falta?

Reflexões de Hoje Sobre o Ensaio de Ontem (06 de Maio)

Desta vez a coisa se revelou para nunca mais ser esquecida. Ontem nos perguntamos a pergunta mais crucial de todas - neste momento - que é: por que é que o vazio é aquilo que não falta? Por que dizemos à Miranda - quem quer que ela seja - que vazio é o que não falta?

Um amigo - Evângelo Gasos - ao escrever um depoimento sobre a terceira montagem do Teatro Inominável - COMO CAVALGAR UM DRAGÃO [atravessar.blogspot.com], manifestou que DRAGÃO havia sido o primeiro trabalho da companhia em que ficava visível - para ele - aquilo que de fato parecíamos querer dizer. Ele escreve que nos trabalhos anteriores (NÃO DOIS e VAZIO É O QUE NÃO FALTA, MIRANDA), ainda é difícil alcançar aquilo que nos move, aquilo que queremos dizer/expressar.

Desde então eu fico me perguntando: como tornar visível aquilo que nos consome criativamente mas que não se expressa ao público? Como comunicar? Seria isso? Comunicar?! Enfim… A verdade é que este re-processo de MIRANDA está se movendo a partir desse apontamento feito pelo amigo Evângelo. Eu tenho buscado - quase desesperadamente - injetar na cena (e para fora dela) a nossa motivação, o porquê desta peça, deste discurso nosso fruto deste agora. Como expressar? A dramaturgia como ponte: de nós até você que nos assiste.

Então, no ensaio de ontem (no qual apenas lemos o texto das duas primeiras tentativas), a coisa veio imediata e sem possibilidade de escape. Fomos juntos entendendo que matamos GODOT e o trocamos por MIRANDA, porque MIRANDA talvez seja mais nossa do que de outra época. Isso não se explica. É quase uma intuição. Cansamos deste nome GODOT e daquilo tudo que nele foi impregnado com o passar dos anos.

O GODOT morreu para todos nós, mas a espera não! A espera sobrevive e não é nosso objetivo exterminá-la. Quem somos nós? Somos seres que ainda esperam, mas a nossa espera é diferente. É mais MIRANDA que GODOT. A nossa espera é fruto de um novo século que já nasceu ignorante do que possa ser esperar. Somos filhos do espetáculo e também do seu esfacelamento. A nossa guerra não é mais mundial, é metafísica egocêntrica e se volta contra o tempo que passa. Temos pressa e nisso, falecemos.

A espera deste tempo é ativa e pouco auto-comiserada; é espera móvel e sim, talvez, um pouco desesperada. A nossa espera a gente grita alto e com ela faz rebuliço. A nossa dor a gente aprende a converter em outra coisa que não somente dor. Não é fuga da dor, não é esquecimento da tortuosidade dos caminhos. É apenas maneira outra de lidar com aquilo já instituído. Já arraigado em nosso - famoso - inconsciente coletivo. Não é hora de nomearmos o inconsciente de inconsistente coletivo?

Eu me emociono com a façanha que é fazer MIRANDA. Eu me emociono porque MIRANDA me ensina a ver luz quando o que me é dado - dizem ser - apenas escuridão. Cansei. Cansamos. Não queremos acreditar só nisso. É pouco demais. É segregador e tendencioso. Tem que haver algo mais. E se não houver, aqui estamos nós, esperando que possa existir alguma outra coisa que não somente o já dito. Afinal, qual seria o nosso papel nisso tudo que não este, o de recriar a vida e lhe oferecer vias distintas para seu brilho e esfacelamento?

Vazio é o que não falta, Miranda, portanto vamos amá-lo como princípio constitutivo. Vamos amar o vazio e descobrir seu fundo. Vamos juntos além da vaguidão do tempo para encontrar numa fagulha do momento agora algo que nos sacie e faça ainda mais desejar.

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Referência trazida durante o processo pelo cenógrafo Rafael Medeiros

No final - ou início - das coisas, há apenas o desejo feito areia movediça: é impossível ficar indiferente ao movimento.

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