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domingo, 10 de março de 2013

Que porra é essa de Miranda, Vello?

Vello ---

é domingo, 10 de março. Daqui a alguns minutos você e as meninas do elenco desta peça chegarão em nossa sede, para mais um ensaio de VAZIO É O QUE NÃO FALTA, MIRANDA. Eu escrevo isso aqui porque quero te propor uma coisa: enquanto estou na sala, ensaiando com Helena e Nielsen, peço que você e Martins fiquem no escritório, pesquisando algumas coisas.

A você, Vello, peço o impossível: na primeira cena do espetáculo você propõe esperar Miranda. Eu nem sei de onde você tira isso. No entanto, você propõe isso e leva todos nós junto. Perceba que após propor esperar Miranda, a sua parceira de cena, Helena, na mesma hora vai consultar (de forma aleatória) no dicionário o que possa ser isso de Miranda: e vocês se afetam pelo sentido que ela traz.

Mas eu quero mais. MIRANDA é uma peça que mexe na cognição, na nossa forma de entender e assimilar o mundo, de criar e estabelecer sentido às coisas (mesmo ao vazio, mesmo ao nada, mesmo ao não). Portanto, não podemos ficar tão soltos. Pelo menos para nós, os jogadores dentro da arena, é preciso clareza irrevogável (ou como já dito, honestidade radical).

Assim, preciso que você me diga de onde sai a proposta Miranda. Mais que isso, preciso ver ela nascendo em cena (tudo mentira, mas tudo verdade, tudo pra lá e pra cá, ou seja, vida pura, complexidade nata). Preciso ver tudo isso em diálogo com as ações das outras atrizes no correr da peça. E, mais importante, preciso ver o momento exato em que você resolve desistir do jogo proposto por você mesma: quando você faz Miranda chegar. (Não temos potência neste momento, mas ele é tipo uma chave que aciona o cômico do trágico e vice-e-versa).


O que significa Miranda chegar?

Quem é ela para que possa chegar embutida numa cadeira??

Miranda chega porque estávamos esperando por ela???

A espera é algo intolerável, por isso você resolve fazê-la chegar????

Mas o que uma cadeira é capaz de satisfazer (pensando que a espera anunciava alguma falta)?????


Você não poderá passar por essa peça sem resolver isso. Seja complicado ou não, é necessário. Vamos agudizar o seu jogo.

Dica: pense em três momentos de Vello na peça (como um percurso mesmo):
1. A proposição de esperar por Miranda;
2. O cancelamento da proposição e a realização da chegada de Miranda;
3. A entrevista com elenco fictício da peça "Esperando Godot".

Esses três momentos dizem tudo sobre você, sobre o seu temperamento, sobre o seu caso com o tal ESPERANDO GODOT. Cito a seguir um trecho do artigo que escrevi sobre nossa peça:


Através de uma sucessão de tentativas para encenar GODOT, agimos certa “poética da negação” porque, após um processo que durou mais de um ano, desacreditamos no esperar de Godot e, ao invés de encenarmos outra dramaturgia, encenamos a nossa própria dificuldade em ter que dar sentido àquilo que não mais nos servia.

Incomodou-me enormemente ler uma peça na qual as personagens sofriam a espera de outro personagem que jamais viria. Ora, por que não livrar tais personagens desta agonia que se repetia desde a primeira montagem em 1953? Ou como aceitar esta espera numa época como a nossa, tão indisposta a não satisfazer imediatamente seus desejos? Ao invés de esperar Godot, optei por inserir antes do verbo “esperar” o prefixo “des”, modificando o sentido da espera e anunciando uma ação via negativa. Desesperar Godot nos fez assim perceber que a nossa encenação seria puro jogo e, portanto, espaço aberto ao imprevisível. Éramos nós contra o tão aclamado texto de Beckett. E como num jogo, ou guerra, a imprevisibilidade nos assaltava a cada passo. Descobrimos nesse percurso maneiras distintas de sobrevivência, relação e cognição. Desfibrilamos o GODOT que considerávamos morto para descobrir ainda vivo – em nós – algo dele que ainda nos fosse sensível. 

Bom trabalho,
Liberano ---


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