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domingo, 29 de maio de 2011

é realmente uma tentativa...

PRIMEIRA TENTATIVA \\
Estamos Enterrando Godot

Escuridão total. Perfurada por lampejos de uma luz fria e laboratorial que acende e revela quatro atrizes ao redor de uma mesa. A Atriz 2 ergue a cabeça, pega um livro sob sua cadeira e se dirige aos espectadores. Ela mostra o livro ESPERANDO GODOT de Samuel Beckett ao público. A Atriz 3 se ergue de sua cadeira, pega a cadeira da Atriz 2 e a posiciona atrás desta, que se senta, paciente. A Atriz 3 retorna a sua cadeira e retira de dentro dela uma máscara de cachorro. Ela coloca a máscara e se aproxima da Atriz 2, latindo.

ATRIZ 2 – (recolhendo o livro sobre o colo para folheá-lo e protegê-lo do cão) Xi! Xi! Um cão foi à cozinha roubar pão e chouriço. O chefe e um colherão deram-lhe fim e sumiço. Outros cães, tudo assistindo, o companheiro enterraram...

Ao ouvir a Atriz 2, a Atriz 3 ou o cachorro se enfeza e avança sobre o livro. A Atriz 2, para silenciar o cão, lança o livro ao chão sobre o qual o canino rosna violentamente.

As duas atrizes ainda ao redor da mesa se erguem de súbito e se assaltam, uma a outra.

ATRIZES 1 E 4 – Você, aqui, que bom que voltou. Pensei que tivesse partido para sempre.
ATRIZ 1 – Você, aqui...
ATRIZ 4 – Que bom que voltou.
ATRIZ 1 – Pensei que tivesse partido para sempre.
ATRIZ 4 – Estou contente.
ATRIZ 1 – Eu também.
ATRIZ 4 – Estamos contentes.
ATRIZ 1 – Estamos contentes. O que vamos fazer agora por estarmos contentes?
ATRIZ 2 – Enterrar Godot.

A Atriz 2 e o cachorro, ou Atriz 3, assumem luto pela morte de Godot, seja ele quem for. As outras duas fazem o mesmo e seguem à cadeira da Atriz 3, retirando dela algo que se passe por um animal de estimação: a Atriz 4 pega um gato de pelúcia e a Atriz 1, pega um porco de barro.

ATRIZ 1 – (acariciando o porco) Pode-se saber onde a senhora passou a noite?
ATRIZ 4 – (acariciando o gato) Logo ali.
ATRIZ 1 – Senti sua falta...
ATRIZ 4 – Eu também... E ao mesmo tempo estava contente. Não é engraçado?
ATRIZ 1 – Está vendo? Se sente pior quando estou aqui. Eu também, me sinto melhor sozinha.
ATRIZ 4 – Então por que sempre volta?

Sabe-se lá porquê, mas nesse instante a Atriz 1 esquece o texto. Sua memória falha e ela não consegue responder à Atriz 4. Constrangimento entre as atrizes e o cão. A Atriz 2, depois de certa indiferença, lembra a fala esquecida.

ATRIZ 2 – Tirando você, ninguém sofre. Eu não conto. Queria ver se estivesse no meu lugar, o que você diria.

Juntas, tentam dar uma melhor intenção à fala,

ATRIZ 1 e ATRIZ 2 - Tirando você, ninguém sofre. Eu não conto. Queria ver se estivesse no meu lugar, o que você diria.

...mas brigam, levando o cão ao desespero, que avança sobre a Atriz 1 e retira dela seu porco de estimação, que morre espatifado contra uma parede ao fundo do palco.

O diretor, que até então encontrava-se sentado num canto do palco, ergue-se agilmente e sai do palco, voltando logo em seguida com uma vassoura, com a qual varre os restos do suíno.

Silêncio pós-morte entre as atrizes. Não foi só o porco que morreu; a cena também. Elas se sentam novamente ao redor da mesa.

ATRIZ 3 – Estou contente.
ATRIZ 1 – Eu também.
ATRIZ 4 – Eu também.
ATRIZ 2 – Eu não. Que é que vamos fazer agora que enterramos Godot?
ATRIZ 1 – Esperar... Miranda.
ATRIZ 2 – Miranda?!...
ATRIZ 1 – Miranda!...
ATRIZ 4 – Miranda?...
ATRIZ 3 – Miranda: (ela abre o dicionário e lê, aleatoriamente, um verbete que possa significar “Miranda”).
ATRIZES – (forçando interesse ou não) Humm...

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