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terça-feira, 12 de março de 2013
Sobre descobrir a performance enquanto ficção ---
domingo, 16 de dezembro de 2012
Do acontecimento
É como se hoje eu tivesse saído de casa e, no entanto, ficasse com a cabeça em processo. Pensando. Tramando. Voltando. Perguntando-se e em plena auscultação do filho.
Falo de MIRANDA e sobre o saldo deste ano. Somos uma companhia que preza pela vitalidade do encontro. Quer dizer: se ele for de mentira então não terá eco em nós; se virar mentira então a gente se DESFIBRILA.
DESFIBRILATOR é um tipo específico de ator que é capaz de chocar os limites ressequidos do hábito com o calor de seu próprio corpo.
MIRANDA este ano nos fez descobrir a performance enquanto ficção. É como se terminasse o ano e tivessemos a certeza de que qualquer ficção mentira ou invenção pode ser sincera, desde que expressada por um corpo que se disponha à sinceridade avassaladora do encontro.
De novo e mais uma vez falamos da diferença.
Como ser aquilo diferente do que eu sou?
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quinta-feira, 30 de agosto de 2012
Após terceira temporada na Cia. dos Atores, em junho deste ano, o Teatro Inominável retorna com VAZIO É O QUE NÃO FALTA, MIRANDA na [ mostra hífen de pesquisa-cena ]
O Teatro Inominável retorna aos palcos cariocas com VAZIO É O QUE NÃO FALTA, MIRANDA (2010), segundo espetáculo da companhia carioca criada em 2008. Em cena, as atrizes da companhia (Adassa Martins, Caroline Helena, Flávia Naves e Natássia Vello) se juntam ao diretor (Diogo Liberano) para tentar, sem sucesso, encenar a obra “Esperando Godot” de Samuel Beckett. Após terceira temporada em junho deste ano na Cia. dos Atores, a companhia agora se apresenta na [mostra hífen de pesquisa-cena], que ocupa a Galeria Marcantonio Vilaça de agosto a setembro deste ano, no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto.
| Fotografia de Thaís Grechi |
Iniciado em outubro de 2009, o processo travou um longo embate com a peça do dramaturgo irlandês para redescobrir, se possível, o seu valor que faz décadas é tão divulgado. Em “Esperando Godot”, o dramaturgo falecido em 1989 apresenta dois mendigos à espera de Godot, que parece ter em mãos a salvação mais imediata dos pobres homens. Nesta obra marcante do pós-guerra, Beckett faz um retrato da condição humana marcado pela angústia de estar vivo, apresentando um vazio existencial que ainda hoje encontra eco no homem contemporâneo.
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| Destaque no site da Cia. dos Atores |
O espetáculo nasceu como projeto curricular na Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ – em 2010 e cumpriu três temporadas de sucesso: a primeira em setembro de 2010, na Ocupação Câmbio do Teatro Estadual Glaucio Gill; e a segunda em dezembro do mesmo ano, na Rampa, Lugar de Criação; e, em junho deste ano, terceira temporada a convite da Cia. dos Atores. Nas palavras do dramaturgo/diretor, MIRANDA acabou virando um estudo sobre o erro e sobre a tentativa, sobre o nosso desespero por saciedade e a nossa dificuldade em lidar com todo e qualquer tipo de falta.
Curtíssima temporada na [ mostra hífen de pesquisa-cena ]
Onde: Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto (Rua do Humaitá, 163 – Rio de Janeiro/RJ – Fone: 2266-0896)
Ingresso: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia-entrada) | Classificação indicativa: 16 anos
Gênero: Comitragédia | Duração: 60 minutos | Lotação: 50 lugares
Elenco: Adassa Martins, Caroline Helena, Flávia Naves e Natássia Vello
Assistência de direção: Thaís Barros
Cenário: Rafael Medeiros
Figurinos e visagismo: Adassa Martins e Natássia Vello
Iluminação: Diogo Liberano e Flávia Naves
Direção musical: Philippe Baptiste
Preparação vocal: Verônica Machado
Registro audiovisual e fotográfico: Pedro Bento e Thaís Grechi
Design: Diogo Liberano
Marketing cultural: Davi Palmeira
Direção de produção: Caroline Helena e Diogo Liberano
Realização: Teatro Inominável e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
[ http://desesperandogodot.blogspot.com.br/ ]
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segunda-feira, 4 de junho de 2012
MESAS TOMBADAS \\ encontros com convidados
Numa alusão direta ao cenário de Rafael Medeiros para Vazio é o que não falta, Miranda, nesta segunda, em paralelo à temporada na Cia dos Atores, começaremos também as MESAS TOMBADAS, que são três encontros que faremos com três convidados super especiais.
Para começar, receberemos hoje a presença do diretor Enrique Diaz para um papo a partir do mote TEATRO E METALINGUAGEM. A conversa será mediada pelo diretor artístico do Inominável, Diogo Liberano, sendo a entrada franca (basta chegar com 30 minutos de antecedência).
A proposta das MESAS TOMBADAS é a de realizar encontros/discussões a partir dos temas centrais que moveram a criação de Miranda. Assim, elegemos três temas: metalinguagem + performance + artes plásticas. Juntos, estes três domínios formam uma forte tríade sobre a qual o espetáculo e as investigações criativas se moveram.
Convidamos para tais encontros figuras expoentes em cada um desses domínios. Para a discussão sobre TEATRO E METALINGUAGEM, o diretor Enrique Diaz se fará presente. Em seguida, para TEATRO E PERFORMANCE, a performer/teórica da performance Eleonora Fabião foi convidada. E por último, para discutirmos a partir do mote TEATRO E ARTES PLÁSTICAS, a artista plástica Livia Flores também confirmou presença.
MESAS TOMBADAS
conversas com convidados antes das apresentações
Segunda-feira, 04 de junho, às 18h
TEATRO E METALINGUAGEM, com o diretor teatral ENRIQUE DIAZ
Mediação de Diogo Liberano
Domingo, 10 de junho, às 18h
TEATRO E PERFORMANCE, com a performer/teórica da performance ELEONORA FABIÃO
Mediação de Natássia Vello
Segunda-feira, 18 de junho, às 18h
TEATRO E ARTES PLÁSTICAS, com a artista plástica LIVIA FLORES
Mediação de Caroline Helena
Todas as atividades acontecem na sede da Cia. dos Atores (rua Manuel Carneiro, 10-12, Lapa – Rio de Janeiro/RJ) com entrada franca (senhas distribuídas meia hora antes).
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terça-feira, 29 de maio de 2012
“A peça não é boa”
Bom, a verdade é a seguinte: neste sábado, 02 de junho, às 20h, na sede da Cia. dos Atores, o Teatro Inominável traz novamente aos palcos cariocas o seu segundo espetáculo, estreado em 2010.
Em Vazio é o que não falta, Miranda, quatro atrizes e um diretor tentam, a todo o custo, encenar a obra Esperando Godot de Samuel Beckett, sem obter sucesso. O espetáculo nasceu de um longo processo no qual elenco e diretor de fato tentaram trazer à cena a obra de Beckett, porém, acabaram por reescrever os caminhos ditados por esta obra mundialmente conhecida.
Miranda cumpre temporada de sábado à segunda-feira, sempre às 20h, com entrada franca (basta chegar com trinta minutos de antecedência e retirar sua senha). Durante as três semanas, o Inominável também apresenta as MESAS TOMBADAS, uma série de conversas com convidados super especiais. Segue abaixo a programação completa:
Segunda-feira, 04 de junho, às 18h
TEATRO E METALINGUAGEM, com o diretor teatral ENRIQUE DIAZ
Mediação de Diogo Liberano
Domingo, 10 de junho, às 18h
TEATRO E PERFORMANCE, com a performer/teórica da performance ELEONORA FABIÃO
Mediação de Natássia Vello
Segunda-feira, 18 de junho, às 18h
TEATRO E ARTES PLÁSTICAS, com a artista plástica LIVIA FLORES
Mediação de Caroline Helena
Não deixem de prestigiar o espetáculo e, sobretudo, também não percam as conversas. A entrada é sempre gratuita, bastando chegar com antecedência de trinta minutos para retirada de senha.
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domingo, 27 de maio de 2012
“A peça está pronta! A peça está pronta! A peça está pronta”
Bom, de acordo com a inominável Adassa Martins, nosso espetáculo Vazio é o que não falta, Miranda realmente está de pé. Bom, há quem duvide. De qualquer forma, o início de nossa temporada está chegando. Já no sábado que vem, dia 02 de junho, às 20h na Cia. dos Atores (Rua Manoel Carneiro, 10-12, Lapa), o Inominável retorna aos palcos com o seu espetáculo xodó.
Em cena, as quatro atrizes da companhia (Adassa Martins, Caroline Helena, Flávia Naves e Natássia Vello) e o diretor e dramaturgo Diogo Liberano tentam a todo custo encenar a obra máxima de Samuel Beckett, Esperando Godot. A montagem estreou em 2010 e agora, a convite da Cia. dos Atores, retorna para a sua terceira temporada.
Muitas pessoas que já assistiram ao espetáculo, quando convidadas novamente, dizem o clássico “eu já assisti”. Bom, com toda sinceridade, MIRANDA não consegue ser a mesma por muito tempo. A pesquisa e o trabalho, desde 2010, modificou tudo o que tínhamos e aprofundou nossas buscas enquanto companhia. A dramaturgia é inédita e, naturalmente, o jogo cênico é também renovado. Vejam de novo!
Permaneceremos em cartaz de 02 a 18 de junho, aos sábados, domingos e segundas, sempre 20h. A entrada é franca, portanto, não deixem de vir. A lotação do espaço é de 60 lugares e - em breve - divulgaremos os três convidados que virão bater um papo antes de três apresentações.
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quarta-feira, 9 de maio de 2012
“Eu não me sinto feliz”
De fato estamos ensaiando Vazio é o que não falta, Miranda. Mas, convenhamos, não é para tanto. Neste vídeo, a atriz Flávia Naves expõe um pouco do seu descontentamento com o nosso processo. Paciência, Miranda chega aos palcos no dia 02 de junho, permanecendo na Cia. dos Atores até 18 de junho, de sábado à segunda-feira, sempre às 20h.
Em breve, informações completas. Estamos planejando um ciclo com debates com convidados, sempre antes das apresentações que acontecem às segundas. Fiquem ligados aqui no blog ou em qualquer outra rede social do Inominável.
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segunda-feira, 7 de maio de 2012
Por que o vazio é aquilo que não falta?
Reflexões de Hoje Sobre o Ensaio de Ontem (06 de Maio)
Desta vez a coisa se revelou para nunca mais ser esquecida. Ontem nos perguntamos a pergunta mais crucial de todas - neste momento - que é: por que é que o vazio é aquilo que não falta? Por que dizemos à Miranda - quem quer que ela seja - que vazio é o que não falta?
Um amigo - Evângelo Gasos - ao escrever um depoimento sobre a terceira montagem do Teatro Inominável - COMO CAVALGAR UM DRAGÃO [atravessar.blogspot.com], manifestou que DRAGÃO havia sido o primeiro trabalho da companhia em que ficava visível - para ele - aquilo que de fato parecíamos querer dizer. Ele escreve que nos trabalhos anteriores (NÃO DOIS e VAZIO É O QUE NÃO FALTA, MIRANDA), ainda é difícil alcançar aquilo que nos move, aquilo que queremos dizer/expressar.
Desde então eu fico me perguntando: como tornar visível aquilo que nos consome criativamente mas que não se expressa ao público? Como comunicar? Seria isso? Comunicar?! Enfim… A verdade é que este re-processo de MIRANDA está se movendo a partir desse apontamento feito pelo amigo Evângelo. Eu tenho buscado - quase desesperadamente - injetar na cena (e para fora dela) a nossa motivação, o porquê desta peça, deste discurso nosso fruto deste agora. Como expressar? A dramaturgia como ponte: de nós até você que nos assiste.
Então, no ensaio de ontem (no qual apenas lemos o texto das duas primeiras tentativas), a coisa veio imediata e sem possibilidade de escape. Fomos juntos entendendo que matamos GODOT e o trocamos por MIRANDA, porque MIRANDA talvez seja mais nossa do que de outra época. Isso não se explica. É quase uma intuição. Cansamos deste nome GODOT e daquilo tudo que nele foi impregnado com o passar dos anos.
O GODOT morreu para todos nós, mas a espera não! A espera sobrevive e não é nosso objetivo exterminá-la. Quem somos nós? Somos seres que ainda esperam, mas a nossa espera é diferente. É mais MIRANDA que GODOT. A nossa espera é fruto de um novo século que já nasceu ignorante do que possa ser esperar. Somos filhos do espetáculo e também do seu esfacelamento. A nossa guerra não é mais mundial, é metafísica egocêntrica e se volta contra o tempo que passa. Temos pressa e nisso, falecemos.
A espera deste tempo é ativa e pouco auto-comiserada; é espera móvel e sim, talvez, um pouco desesperada. A nossa espera a gente grita alto e com ela faz rebuliço. A nossa dor a gente aprende a converter em outra coisa que não somente dor. Não é fuga da dor, não é esquecimento da tortuosidade dos caminhos. É apenas maneira outra de lidar com aquilo já instituído. Já arraigado em nosso - famoso - inconsciente coletivo. Não é hora de nomearmos o inconsciente de inconsistente coletivo?
Eu me emociono com a façanha que é fazer MIRANDA. Eu me emociono porque MIRANDA me ensina a ver luz quando o que me é dado - dizem ser - apenas escuridão. Cansei. Cansamos. Não queremos acreditar só nisso. É pouco demais. É segregador e tendencioso. Tem que haver algo mais. E se não houver, aqui estamos nós, esperando que possa existir alguma outra coisa que não somente o já dito. Afinal, qual seria o nosso papel nisso tudo que não este, o de recriar a vida e lhe oferecer vias distintas para seu brilho e esfacelamento?
Vazio é o que não falta, Miranda, portanto vamos amá-lo como princípio constitutivo. Vamos amar o vazio e descobrir seu fundo. Vamos juntos além da vaguidão do tempo para encontrar numa fagulha do momento agora algo que nos sacie e faça ainda mais desejar.
Referência trazida durante o processo pelo cenógrafo Rafael Medeiros
No final - ou início - das coisas, há apenas o desejo feito areia movediça: é impossível ficar indiferente ao movimento.
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domingo, 6 de maio de 2012
Psicologia Invertida
Reflexões Sobre o Ensaio de Ontem (05 de Maio) Indo de Ônibus em Direção ao Ensaio de Hoje
O trocador acabou de me alertar que um cara foi assaltado dentro do ôonibus por ter tirado o seu laptop para fora da mochila. Bom, é só mesmo o que falta acontecer. Paciência. Vou seguir escrevendo.
No ensaio de ontem aconteceu uma coisa muito engraçada. Quer dizer, não teve graça, na verdade aconteceu algo bastante sintomático neste processo. A atriz Natássia Vello (que agora integra o elenco original de MIRANDA e substitui Fabíola Sens) teve, como dizer?, um pânico processual. Uma fobia expressa. Um entupimento explodido em choro descontrolado.
Quero dizer: tive que interromper o ensaio pois de fato não fazia sentido continuar. Mas percebi - conversando com as meninas - algo muito interessante: a construção das personagens em MIRANDA (ou a construção dos seus respectivos lugares enquanto atrizes nesta encenação) coloca as meninas num lugar invertido.
Lugar este espaço para a gênese de uma poética da negação.
Quero dizer - parte II - não há construção de uma psicologia do meu papel, da minha personagem. O que há é um jogo a ser jogado - dramatúrgico e cênico - que se constitui e se firma mais e mais a cada segundo que problematiza e transtorna a psicologia pessoal de cada atriz. Ou seja: quanto mais movem seus corpos e estados e crenças e facilidades/dificuldades na realização da cena, mais se está MIRANDA e menos se está a si própria. Jogar MIRANDA é jogar o instável. O tempo inteiro. E, convenhamos, quem realmente está curtindo ficar na corda bamba?
Sugiro aqui um movimento curioso para se pensar a tal da poética da negação (FLORES, L.). Eu quero dizer que não há construção da personagem (com seus psicologismos e afins). Há um movimento do ser atriz que funciona na medida em que cada uma das meninas se permite ser estando. É menos ser alguma coisa e mais estar ali, de corpo aberto e com corpo aberto presentemente.
Mais do que sobreposições de camadas, de habilidades, de subtextos e desejos/vontades, o que deve ser somado em seus corpos são apenas os segundos (que morrem e nascem numa rapidez assustadora) e a capacidade de transitar entre eles. De sair de um ponto tal e já se ver firme noutro ponto (por vezes muito distante e oposto ao original).
Estas coisas que venho escrevendo, estas reflexões pós-ensaio, são tentativas muito imediatas de lançar por sobre a criação do espetáculo um olhar mais atento de seu percurso criativo. Ontem nos aconteceu isso. E me pareceu mesmo um achado ter conseguido ver como a construção psicológica em MIRANDA é justamente a desconstrução e o assassinato de qualquer psicologia que se almeje como inteireza, como centro e eixo regulador.
Não há unidade. A unidade seria a completude (?). Em MIRANDA, abrimos vagas para nunca esquecer que há falta e desejo, a mover o espírito e o corpo.
MIRANDA é um liquidificador desgovernado e as meninas, farinha água leite e ovo.
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sexta-feira, 4 de maio de 2012
quarta-feira, 2 de maio de 2012
Espaço e tempo da ação \ Personagens
Espaço e Tempo da Ação
AQUI E AGORA
Personagens
QUATRO ATRIZES E UM DIRETOR TEATRAL
HELENA Quer ser sincera mas não consegue. Sofre a beleza das amigas e tem por elas inveja de cor marrom. No íntimo deseja ser homem. No comportamento já o é. Curte artes marciais e teme brigas. Não tem graça alguma pois nunca conheceu a felicidade. Sente fome mas não sabe o nome que nomeia a sua vontade. Desentende o significado das palavras “inércia” e “silêncio”.
LIBERANO Concentra em si as piores qualidades de um homem: arrogância e violência. As piores de uma mulher: cinismo e sedução. E as piores de um cachorro: morde e mija em cima. Sente-se onipotente, onipresente e omnisciente. Consegue transformar tudo em verdade, especialmente mentiras. Sofre de uma doença que o consome, mas é ignorante de tal fato, como de outros.
MARTINS Quer aparecer mais do que qualquer outra pessoa no mundo. Emociona-se com facilidade e se usa de tal fragilidade para conseguir aquilo que deseja. Submete-se com facilidade ao que lhe é imposto na esperança de parecer bondosa e dedicada. Dissimula sua real opinião das coisas até o limite máximo da insuportabilidade. Costuma quebrar aquilo que não lhe pertence.
NAVES Quer mandar naquilo que não lhe compete. É altamente invejosa, apesar de esconder suas reais intenções em prestatividade e doçura. Não consegue tolerar a opinião alheia sem que antes imponha a sua própria. Adepta da pirraça e de escândalos, quer ganhar falando mais alto. Gosta de humilhar aqueles que, porventura, estão em posição submissa a sua.
VELLO Quer fazer parte do grupo mas não consegue. Seu corpo depõe contra a delicadeza que arduamente tenta transparecer frente as amigas. Curte linguagens híbridas e, portanto, facilmente se distancia para acariciar o próprio umbigo. Sente prazer e se masturba em lugares públicos. Gosta de se fazer vítima de grandes brigas, bem como de puxar cabelos que não os seus.
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Dramaturgia do acontecimento
Reflexões Imediatamente Posteriores ao Ensaio de 02 de Maio de 2012
Tentarei colocar em palavras um pouco deste movimento atual de escrever VAZIO É O QUE NÃO FALTA, MIRANDA. Como se sabe, em junho teremos uma nova temporada de MIRANDA no Rio de Janeiro. Será a nossa terceira temporada, sendo que as duas anteriores aconteceram, respectivamente, em setembro e dezembro de 2010.
Desde dezembro de 2010 não apresentamos o espetáculo. E ao decidirmos voltar com MIRANDA neste ano, percebemos que precisaríamos rever MIRANDA, entender novamente se a fagulha inaugural que nos arrepiava ainda era capaz de nos seduzir. E é. Mas não vou falar disso. Vou tentar discorrer sobre a consistência, sobre a constituição das ações em MIRANDA. Sobre a dramaturgia, por assim dizer.
A dramaturgia deste espetáculo é cênica. Majoritariamente cênica. Ela depende do corpo das atrizes. De suas vozes (várias em cada uma) e dos estados, dos calores, ou seja, não é dramaturgia que possa ser lida. Qualquer tentativa nesse sentido - a saber, o de palavras postas num papel - é pouco. É insuficiente. Nada novo, talvez. É assim com as encenações teatrais, eles sempre se materializam para além de palavras. Acontece que a dramaturgia textual de MIRANDA deveria conseguir domar o acontecimento, o arrepio, a instabilidade.
Sendo assim, como escrever o tremor? Como escrever terror, dificuldade e desorientação (para citar Bogart)? Como ser escrita-liquidificador?
Não se escreve. Não tem como. Assim, no ensaio de hoje, entreguei ao elenco e a mim mesmo a primeira cena, a nossa primeira tentativa, intitulada ESTAMOS ENTERRANDO GODOT. Nesta cena - ou tentativa - tentei escrever uma espécie de dramaturgia-roteiro, pela qual as atrizes possam passar seus corpos e atravessar o sentido ali em palavras concentrado.
Quero dizer: nossa dramaturgia acontece em movimento (não no papel). Quero dizer: nossa dramaturgia é escaleta de acontecimentos que precisam ser performados, que precisam de tentativa, lapidação e suor. Quero dizer: sendo assim, nada em nosso dramaturgia é tão certo, nada é tão fechado.
Nesta dramaturgia que aqui chamo do acontecimento, interessa-me sobretudo plantar problemas que possam vir a ser desdobrados via ação e afeto. A escritura acontece pelos corpos das atrizes e também pelo meu. No papel, apenas um fio a seguir.
O uso de rubricas pontua as mudanças de blocos, digamos assim. Quer dizer que em uma tentativa, há pequenos pedaços que formam o todo. Nestes pedaços, ouso sugerir escalonamentos, ou seja, cada bloco pode ser feito por uma atriz, ou dupla de atrizes. Em outros blocos todos estão em diálogo.
O mais interessante que conversamos no ensaio de hoje foi que toda a cena - toda a tentativa (mesmo quando “eu” não estou “em ação”) - pode me alimentar a explodir minhas ações físicas e textuais. Contracenação. Alimentamo-nos uns dos outros. Como dar corpo ao meu personagem?
Na postagem seguinte, disponibilizarei a descrição das personagens que alimentam o roteiro da peça e nosso imaginário. Por hoje é isso.
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